por Thiago Lobão
De onde vem
Esta força que lança
No céu todos os astros
E que no chão
Finca como mastro
Caules e formas diversas
De onde vem
Dentro de mim
Este imã como talismã
Que carrego no peito
E que não se desvia pelas pegadas
Pelas tantas andadas
Por todas as jornadas
Que até aqui já venci
De onde vem
A invenção de todas as coisas
Dos sabores do sapoti
Dos odores das mangas
Dos dissabores do amor
Que pela vida flutuam
Como signos da sina
De quem teima na esperança
De ter na areia um castelo de saudade
De onde vem
A história remendada
Em cabeças de memória
Em papiros que bóiam
Na noite do Nilo
Que deságua para homens
As águas que já moveram
Toda a engrenagem do mundo
E que já mataram a sede
De impérios e ciganos
De onde vem
Este destinador de destinos
Em passos de menino
E nas pernas de um homem
Em sonhos que comem
Horas do pensamento matutino
Do pico do Himalaia
Ao sopé dos Apeninos
De onde vem
A voz que se cala
A chuva que fala
A flor que fora de escala
Guarda em suas pétalas
Todos os pontos cardeais
De onde vem
O submundo escondido
Da pequena unidade elementar
Da luz que ondulando o corpuscular
Do sol vem nos fazer andar
Singrando margens do nada
Em viagem aprendida
Por bilhões de anos de trilhas
De onde vem
A microbiologia celular
A proteína absoluta que carrega
Anos e anos do ato de transformar
E a parte cega que segrega
Cores que vieram do mesmo lugar
De onde vem
Cada grão da invenção
Cada pedaço do astrolábio
Cada sinal da globalização
Cada transplanta cultural
Cada galeão tropical
Cada mar repartido e desigual
De onde vem
A dorsal do Atlântico
A radiação do fundo profundo
O amor de Marília e de Dirceu
Os ventos de Ícaro
O magnetismo terrestre
A cantiga do trovador silvestre
A dama em sensação
A poesia em plenitude
A sede se há açude
E a fome se há coração
(?)

:)