Dois mundos, uma prisão

por Thiago Lobão e Leandro Monerato

Perdoaremos
Aqueles lá
Por que – oh pai
Eles não sabem o que dizem?
Ou porque nós – oh pai
Não sabemos que eles lá
Nos perdoam?

Congregaremos
Céu e inferno – oh pai
Numa dança de dois mundos
Por que não sabemos que
[a dança]
É impulso de você – oh pai

Não sabem o que dizem
E nem dizem o que fazem
Mas fazem o que fazem
E não cabe perdão – oh filho

Se nos perdoam
De um crime que não cometemos? – oh filho

Congregaremos
Céu e inferno – oh filho
Porque sabemos danças.

Olhe agora
Um avião
Dois aviões
A dança de Zeus
Duas danças de Zeus
Sobre plurais ateus
Que perdoam os deuses na singularidade absoluta
Da luta – da luta
Da luta pelo filho e pelo pai
Oh pai, oh filho
Da luta pelo inconsciente
Onipresente – latente
Desejo de ser Deus
De ser o homem reflexo
De dois mundos
De um mundo
Um avião sobre São Paulo
Uma asa
Sem bússola
E a palma das mãos
Sem linhas
Observe as galinhas
Nas entrelinhas do sub-mundo
De dois sub-mundos
Que não sabem ser mundo
Por que desconhecem Deus

Oh pai!

[no fundo não creio]
[no filho e no seu pai]

Somos filhos e somos pais
São dois mundos
Deus, seu reflexo.

3 Respostas

  1. No princípio,
    Lá no princípio estavam eles.
    Não o pai. Não o filho.
    Não aquele pai ou aquele filho.
    Ambos filhos, sim. Quem sabe pais?
    Devem ter dito algo como:
    “Façamos à nossa semelhança”.
    Certamente dirão os que os conhecem
    Que não se prenderam em delongas,
    E foram logo para os finalmente.
    Thiago e Leandro
    Dois gênios, uma obra de arte.

  2. A relação entre pai e filho…. é realmente forte assim. Ouve-se duas vozes na poesia, claramente…. Coincidência ou não, meu pai está a meu lado enquanto vejo essa poesia….. Que força enorme existe nos homens, se o pai e o filho são reflexos do Pai e do Filho…. e da Onipotência do Deus e da piedade, da humildade e do sacrifício do homem…. .
    Espelhos se espalham

  3. Eu vi coisas absurdamente fantásticas enquanto li esse poema. Uma enorme sala onde se via nitidamente ao centro um enorme aquário com alguns peixes (não saberia dizer quantos, só observei claramente três, mas sei que teria muito mais), mais ao fundo uma grande poltrona onde se assentam um pai e um filho. O pai esta trajado de social e está com o pé direito sobre a perna esquerda. O filho está de short (é criança ainda) e as mãos entrelaçadas sobre as pernas. O pai está com o braço direito sobre o ombro do garoto e ambos observam o aquário enquanto dialogam. Os peixes já estavam lá, mas sei que lá foram colocados pelo filho – pelo menos o(s) peixe(s) menor(es), porque o peixe Beta quem colocou lá foi o pai. Enquanto dialogam o Beta faz o que é de sua natureza – destrói os demais. Na estrofe mais longa o pai parece meio disperso, mas ainda bastante lúcido, tanto que nesse momento passa um gato pela sala e ele tem a intenção de acrescentar mais aquele elemento dentro do aquário. Não consigo ler o pensamento do pai, é claro, mas posso ver como os olhos dele brilham nesse momento.

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